domingo, 24 de abril de 2011

Pródigo

Aquele dia amanheceu incomum. Parecia o dia exato para pôr em prática o que durante noites e noites em sua cama ele ficava imaginando como fazer, como dizer sem causar dor. Mas ele já havia decidido.
Já não suportava mais o tédio dos dias, a mesmice daquela casa, a rotina... Embora amasse a seu Pai, sabia que havia criado asas e que já era hora de voar. Afinal de contas, já era um homem e nada tirava de sua mente que a vida era curta demais para ser vivida só ali. A independência despontava como uma necessidade e não mais só como um desejo.
O aconchego do lar, as regalias de um filho, as antigas canções, os momentos que passou ouvindo as histórias do pai com a cabeça recostada em seu ombro, já não soavam tão atraentes. O tempo tornou as situações comuns. Olhar pela janela, contemplar o horizonte sonhando com o que existia além se tornou um hábito. As palavras do Pai, ou mesmo conversar com Ele já era algo menos importante. E essas conversas, os carinhos, as brincadeiras, se tornavam cada vez mais difíceis de acontecer.
O que havia de tão especial na vida de seus amigos, por que eles pareciam tão livres, tão alegres? Ele precisava descobrir. Ele precisava se descobrir. Ele precisava crescer, prosperar, ser, construir, ele precisava viver por si mesmo, mas em si mesmo.
Foi um golpe muito forte no coração do Pai, por que Ele sabia que aquele não era o momento certo e nem a forma certa. Ele não queria dizer adeus. Mas embora sua dor fosse terrível, ele sabia que aquela era a escolha de seu filho. O pai lhe concedeu o que tanto seu coração queria.
Os dias que seguiram foram frios. O pai sabia que os caminhos do coração nem sempre levam aos destinos que sonhamos. O filho tinha certeza que seguir a voz do coração era o verdadeiro caminho.
No dia da saída, o filho olhou mais uma vez para cada detalhe de seu quarto, como quem se despede. Havia chegado o momento. Ele tomou nas mãos as suas coisas, e seguiu para a sala onde estava seu pai. Ele olhou para o pai e disse: Adeus. O pai lhe disse: Até logo. Ele seguiu rumo a nova vida que o esperava.
Para uma terra longínqua, a “terra dos sonhos”, uma terra de ninguém, sem nome, sem regras. O que poderia acontecer, o que o dinheiro não pode comprar, o que um prazer não pode aliviar? “Olhe para minha beleza, pague o que tiver e eu te faço esquecer de tudo que você deixou para trás, te ofereço meu amor sem as algemas de um compromisso!” “Aposte mais uma vez, você está vencendo, Amigo, você pode ter sempre mais” “Só mais uma dose, sei que você consegue! ” “A vida é uma festa, a noite é uma criança, você tem o mundo em suas mãos, você é o melhor!”. Ele viveu dissolutamente como um Pródigo.
E grande fome abateu-se sobre aquela terra. Quanto vale sua vida, quanto vale esse viver? Não há mais dinheiro. “Eu não o conheço, afaste-se de mim, volte quando tiver como pagar!”, “Guarde essa micharia para você, seu mendigo!” “Amigo? Eu nunca fui seu amigo, na verdade eu nunca o vi, afaste-se de mim”, “Ei, você está me devendo, sua vida está nas minhas mãos agora!” Para onde ir, não há como voltar atrás, semeei e vou colher?
“Vivendo por mim mesmo, pensando para mim mesmo
Castelos de areias, riqueza temporária
Paredes estão caindo, tempestades sobre mim estão me fechando
Lágrimas enchem meus olhos, aqui estou eu novamente”
Na sarjeta, um olhar lhe alcançou, uma chance para sobreviver. Ele suplicou. Não tinha escolhas. Um estômago e um coração vazios. Um dos cidadãos daquela terra lhe ofereceu um trabalho. “Vá para os campos, apascentar meus porcos.” Onde estão seus sonhos agora? Onde estão seus amigos e as aventuras prometidas? Onde está seu dinheiro? Onde está seu coração? O tesouro certo no lugar errado, o coração obstinado no lugar onde queria estar, não imaginou onde poderia chegar. Quem o levou ao lugar mais sujo, onde você jamais imaginou estar? Você quis caminhar sozinho. Você chegou sozinho até este destino.
E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E sabia que mesmo que pudesse se fartar do maior manjar agora, nada lhe parecia preencher o coração. Até a lavagem lhe parecia deliciosa... Como pôde achar tedioso o seu próprio lar anteriormente? Ele não queria, mas era inevitável pensar no pai, em seus olhos de amor, nas dádivas que lhe dera, dádivas que iam além de riquezas materiais, elas ali não existiam. Até quando suportaria? E, tornando em si, disse: “Quantos jornaleiros de meu pai têm abundancia de pão, e eu aqui mereço de fome!”.
“Amaldiçoou esse sol da manhã
Me arrastou para mais um dia
De colher o que eu plantei
De viver com minha vergonha
Bem vindo ao meu mundo
E a vida que fiz
Onde um dia você é um príncipe
E no próximo você é um escravo”
Difícil reconhecer um erro, mas difícil ainda voltar atrás. Até que ponto o orgulho suportaria, se é que ainda havia algo do que orgulhar-se. As lembranças vinham como em um filme, a memória de uma vida doce, o aconchego de um amor puro, incondicional. Incondicional, isso mesmo. Ele lembrou que o amor é eterno e incondicional. Ele reconheceu que era indigno desse amor, mas tentaria, se humilharia se preciso fosse. Ele estava disposto a reaver seu tesouro e fazer seu coração enganoso voltar ao lugar de onde jamais deveria ter saído.
Ele levantou–se da lama, caminhou sob o escárnio dos antigos amigos, sob a chuva e o sol, sob a humilhação de ter perdido a dignidade. Mas ele sabia, e no fundo sempre soube: “De que me valeria ganhar o mundo inteiro e perder minha vida?” Como ainda tinha vida, sabia que ainda tinha esperanças.
Ao adentrar os terrenos do pai, era como se o fôlego lhe voltasse aos pulmões. Nunca havia prestado atenção em como eram lindas aquelas flores, não havia nenhum tédio naquilo, tudo, apesar de antes parecer comum, agora era esplendido, maravilhoso. O que é preciso para valorizar as pequenas coisas?
As lágrimas lhe encheram os olhos, quando avistou sua casa. Era como se pudesse contemplar um manancial em meio ao deserto. Os trabalhadores pararam seu trabalho, atônitos. O tempo parou. Ele, cambaleando ainda, deu mais alguns passos, até que avistou seu Pai. O Pai permanecia, como quem espera, no mesmo lugar onde ele havia o deixado quando foi embora. Seu coração parecia explodir. Sem forças para caminhar, ele caiu de joelhos:
“Eu agüentei o quanto eu pude
Agora eu desisto e estendo minha mão
Papai, aqui estou eu novamente
Você me acolherá novamente esta noite
Eu fui e fiz o mundo meu amigo
E ele me deixou vazio
Eu arrastei de novo Seu nome para a lama.
Você que primeiramente me amou
Não sou merecedor de ser chamado de seu filho
Era para este ser meu fim
Mas, Papai, aqui estou eu novamente
Aqui estou eu novamente”
E, levantando-se, foi para seu pai; ele queria ao menos, estar próximo do pai, ainda que como um servo. E, quando ainda estava longe, o seu pai o viu. E contradizendo todas as expectativas ruins que o filho tivera e sabia ser merecedor, o Pai se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: “Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.”
O pai lhe abraçou com a profundidade de um oceano, abraçou sua alma, e aquilo confirmava ao coração do filho que, embora não fosse merecedor, ainda tinha o amor de seu pai. Todos os caminhos o levaram até ali. Aquele momento estava guardado desde a eternidade, e o Pai sabia disso. Daquele dia em diante seu coração estava no lugar certo e seu tesouro achara o lugar adequado que tanto procurou, que tanto sonhou. Nenhuma aventura poderia lhe oferecer a eterna sensação de paz daquele instante. Ele partiu dizendo: Dê-me, e voltou dizendo: Trata-me.
O pai disse aos seus servos: “Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés. O pai lhe devolveu sua honra e sua dignidade, lhe devolveu sua vida. “E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se”.
“Por que onde estiver seu tesouro, ali também estará seu coração” Mateus 6. 21

Texto extraído de Lucas 15. 11-24. Frases em itálico extraídas da canção Prodigal de Casting Crowns.

Marcinela e o Carpinteiro...

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A grande noite da sua vida - Por Sarah Soeiro.

A Vida é como um espetáculo. Daqueles que acontecem durante a noite, com um grande público, grande expectativa, e muita dedicação. Este espetáculo conta a sua história e o ator principal não podia ser mais ninguém além de você! Imagine quantas pessoas estão presentes neste publico, nesta noite. Muitas e muitas ocupam vários assentos na platéia, e o espetáculo já começou. Varias delas estão distraídas, e nem ligam mais pra o que vai acontecer, o fato é que por algum motivo elas estão no público, e precisam te assistir, independente de como essa história termine. Outras torcem pra que você seja derrotado, e estão atentos a qualquer emoção sua que expresse um motivo de prazer a eles. Cruzam os dedos e querem vê-lo ao chão, pois esse é o modo em que a historia ficará mais emocionante. E ainda uma pequena parte desse publico quer vê-lo vencer. Choram quando você chora, alegram-se quando você se alegra, e desejam ansiosamente que a sua história tenha um final feliz.
Este espetáculo é ao vivo, inédito, e dispensou ensaios. Todos estão com os olhos bem fixos, atentos a tudo o que acontece. E você no meio do palco. Vivendo uma cena de cada vez, escolhendo as melhores palavras, e com um frio na barriga que desde o começo do espetáculo, nunca foi embora. Depois de ter imaginado tudo isso até aqui, quero desviar a sua atenção pra algo mais especial que tudo o que já foi imaginado. Quando você esquecer uma fala, quando errar a ordem das cenas, quando achar que trocou a ordem das palavras olhe para o lado. Bem atrás de uma banda da cortina que está aberta, em um lugar onde só você pode enxergar, existe alguém que está mais ansioso que você, mais nervoso que você, e cochicha com varias expressões e gestos o que você deve fazer agora. É só olhar parar o lado, e você saberá o que fazer nesta cena. Antes de o espetáculo começar, ele disse que estaria ali te ajudando. No entanto, você se distraiu com a grandeza daquele publico, e acabou se esquecendo que ele estaria ali. Deixe-me apresentá-lo. Ele é o autor e diretor do seu espetáculo, está mais interessado com o sucesso desta peça do que qualquer outro, inclusive você! Ele o escolheu, e escreveu este enredo com todo o cuidado. Sempre a espera das palavras certas, imaginando tudo perfeitamente como o melhor e maior autor de espetáculos que já existiu. Ele é o Senhor, e você só precisa olhar para o lado e entender o que está dizendo. Somente você pode vê-lo, e ninguém pode vê-lo por você.
Ele só precisa de um segundo da sua atenção, e você descobrirá o que fazer nesta cena. Foi ele quem criou o seu espetáculo, e ninguém melhor que ele pra te orientar. Lembre-se: a sua historia é única, e uma obra feita pelo maior autor de todos os tempos. O autor da vida cochicha bem baixinho o seu nome, e tudo o que precisa fazer é olhar pra ele, e confiar em suas palavras. E verá que quando o espetáculo terminar, ele te dará a recompensa por tê-lo ouvido e entendido o propósito daquela noite gloriosa, que foi o dia do seu inesquecível espetáculo.

Quero trazer à memória...

Existem certas coisas na vida, que são impossíveis de esquecer e merecem ser sempre lembradas...

Lembre-se sempre do carinho daquelas pessoas que Deus colocou na sua vida pra cuidarem de você... Aquelas que te conhecem do jeitinho que vc é e te amam mesmo assim... Aquelas pessoas com a qual muitas vezes vc brigou, discutiu, mas que depois esqueceu tudo rapidinho; vc sabe que seria capaz de fazer qualquer coisa por elas, não só por que têm o mesmo sangue, mas por que são ligadas por um mesmo amor incondicional...
(Minha família)

A confiança de uma amiga que chegou dizendo que vc seria titia, a cumplicidade daquela que sempre que pode te tira dos maiores apertos, ou fé daquele amigo que apesar de ter passado a maior barra, só vive brincando. Os amigos que vc fez numa sala de aula, mas sabe que o afeto vai além das quatro paredes...
(Serviço Social – UFMA)

Ou então aquele dia (tão esperado) em que depois de muito trabalho, vc resolveu comemorar uma vitória com pessoas que te ensinaram que o valor e o sucesso de uma equipe não estão simplesmente na organização e capacidade, mas na amizade e carinho que une cada um...
(Meninas de Serviço Social – UFMA)


A ternura de amigos que na verdade são irmãos que vc teve o privilégio de escolher... Aqueles que te fazem chorar de tanto rir, e que quando vc chora de tristeza, enxugam suas lágrimas... Que perguntam como vc está, não por conveniência, mas por que se interessam no seu bem... Que amam o mesmo Deus que vc e que te amam (e já disseram isso milhões de vezes)... Aqueles que vc sabe que pode contar SEMPRE...
(Meus miguxos da Pice)

O sorriso e a simplicidade das “pessoinhas” que desde o dia em que nasceram trouxeram uma alegria imensa pra sua vida... E te ensinaram (mesmo sem consciência disso) que pra amar não é preciso entender muita coisa, basta somente existir e abrir o coração...
(Os bebês da Tia)

O privilégio que vc teve de ter recebido um dom tão lindo de Deus e de poder compartilhá-lo abençoando outras vidas... Aquilo que vc ama fazer e ama ainda mais por saber que Deus sorri quando vc desfruta deste presente pensando Nele...
(Música em mim...).

Até mesmo aqueles momentos em que vc sofreu tanto, que pensou que era o fim... Vc se desesperou, mas entendeu que a cura vem muitas vezes acompanhada pela dor, e que as estrelas brilham mais quando o céu está bem escuro... Depois que tudo passou vc se alegrou por que viu que cresceu e foi fortificado ainda mais...

E finalmente, o momento em que vc descobriu que a vida tem um sentido muito maior, uma razão eterna, e sua vida mudou completamente... O dia em que vc reconheceu o amor de Deus revelado na cruz através de Jesus... Talvez vc nem entenda a graça maravilhosa, mas sabe que não poderia e nem conseguiria viver sem ela... É impossível esquecer o amor que te salvou e que não te desampara jamais...

Enfim, vale a pena lembrar de momentos, pessoas, gestos, palavras, sentimentos, e reconhecer a mão Fiel de Deus em cada uma dessas coisas... Quem não as valoriza acaba se embaralhando, por ter esquecido o valor de cada uma dessas peças no quebra-cabeça chamado vida...

“Portanto, quero trazer á memória aquilo que me traz a esperança.”
Lm. 3.21

DEUS TUDO PODE! Quando o sonho se desfaz, Deus reconstrói; Quando se acabam as forças, Deus renova; Quando é inevitável conter as lagrimas, Deus dá alegria; Quando a maldição é certa,Deus transforma em bençãos; Quando parece ser o final. Deus dá novo começo; Quando tudo parece se fechar, Deus abre uma nova porta. Quando vc diz não vou conseguir, Deus diz. Não temas pois sou contigo; Quando tudo é dor, Deus dá o balsamo curador e o refrigério; Quando não há possibilidade, Deus faz o milagre; Quando não existe mais fé, Deus diz, ACREDITE. Reflita nisso.

Ele se entregou, foi por AMOR...

Não disse uma palavra sequer, enquanto foi moído em meu lugar
Mas em seu silêncio estava me dizendo: Tudo suportarei por te amar
Inocente como um cordeiro
Entregue como um sacrifício em um altar
Se despiu de sua Glória e Majestade
Para uma coroa de espinhos usar
O Rei dos Reis
Não merecia, mas foi humilhado
Como um criminoso foi julgado
Desprezado como um traidor
Por todos aqueles a quem tanto amou e por quem se entregou
Mas sua morte me trouxe vida
Cura tenho em suas feridas
E quando pensava que não haveria amanhã
Ele ressurgiu
Confirmando a minha vitória
E por que Ele vivo está
Não tenho o que temer
Pois a morte foi vencida
Já não há condenação
Livre posso ser...

"Nele temos a redenção por meio de seu sangue, o perdão dos pecados, de acordo com as riquezas da graça de Deus, a qual Ele derramou sobre nós com toda sabedoria e entendimento". Efésios 1.7

Você é especial - Max Lucado



Era uma vez, um povo chamado xulingo. Os xulingos eram pequenos seres, feitos de madeira. Toda essa gente de madeira tinha sido feita por um carpinteiro chamado Eli. A oficina onde ele trabalhava ficava no alto de um morro, de onde se avistava a aldeia dos xulingos.
Cada xilungo era diferente dos outros. Uns tinham narizes bem grandes, outros tinham olhos enormes. Alguns eram altos, e outros bem baixinhos. Uns usavam chapéus, outros usavam casacos. Todos eles, porém, tinham sido feitos pelo mesmo carpinteiro e moravam na mesma aldeia.
E o dia inteiro, todos os dias, os xulingos só faziam uma coisa: colocavam adesivos uns nos outros. Cada xulingo tinha uma caixinha com adesivos dourados, em forma de estrela, e uma caixinha com adesivos cinzentos, em forma de bola. Em toda aldeia, indo e vindo pelas ruas, os xulingos passavam dia após dia colando estrelas e bolas uns nos outros.
Os mais bonitos, feitos de madeira lisa e tinta brilhante, sempre ganhavam. Mas, se a madeira era áspera ou se a tinta descascava, os xulingos colocavam bolas cinzentas.
Os xulingos que tinham algum talento também ganhavam estrelas.
Alguns xulingos, porém, não sabiam fazer muita coisa. Esses ganhavam bolinhas cinzentas.
Marcinelo era um desses. Ele tentava pular bem alto como os outros, mas sempre caia. E, quando caia, os outros xulingos se juntavam à volta dele e lhe davam bolinhas cinzentas.

Às vezes, quando caía, sua madeira ficava arranhada, e, assim, os outros colavam mais bolinhas cinzentas nele.
Aí, quando ele tentava explicar porque tinha caído, dizia alguma coisa do jeito errado, e os xulingos colocavam mais bolinhas cinzentas nele.
Depois de algum tempo, Marcinelo tinha tantas bolinhas que nem queria sair de casa. Tinha medo de fazer alguma bobagem, porque os xulingos iriam colar nele mais uma bolinha .
- Ele merece ficar coberto de bolinhas cinzentas – as pessoas de madeira diziam umas às outras. – Ele não é um bom xulingo.
Depois de algum tempo, Marcinelo começou a acreditar neles. E vivia dizendo:
- Eu não sou um bom xulingo.

Certo dia, Marcinelo encontrou uma xulinga diferente de todas que ele conhecia. Ela não tinha nem estrelas nem bolinhas. Só madeira.

O nome dela era Lúcia.
E não era porque outros xulingos não tentassem colar adesivos em Lúcia. É que os adesivos não ficavam.
É assim que eu quero ser, pensou Marcinelo. Não quero ficar com as marcas de outras pessoas.
Então, ele perguntou à xulinga que não tinha adesivos como é que ela conseguia ficar assim.
- É fácil – respondeu Lúcia – todo dia, vou visitar Eli.
- Eli?
-Sim, Eli, o carpinteiro. Fico lá na oficina com ele.
- Por quê?
- Por que você não descobre por si mesmo? Suba o morro. Ele está lá em cima. E, dizendo isso, a xulinga que não tinha adesivos virou e foi embora, saltitando.
- Mas será que ele vai querer me ver? – gritou Marcinelo. Lúcia não ouviu.
Assim Marcinelo foi para casa. sentou-se junto à janela e observou toda aquela gente de madeira andando de um lado para outro, colando estrelas e bolinhas uns nos outros.

- Isso não é certo. – disse ele baixinho para si mesmo.
E decidiu ir ver Eli.
Marcinelo subiu pelo caminho estreito até o alto do morro e entrou na enorme oficina. Seus olhos de madeira se arregalaram com o tamanho das coisas. Ele engoliu em seco.
- Eu não fico aqui não! – e virou-se para ir embora.
Foi então que ouviu alguém dizer seu nome.
- Marcinelo? – a voz era profunda e forte.
Marcinelo parou.
- Marcinelo! Que alegria ver você. Chegue mais! Quero ver você bem de perto.
Marcinelo virou bem devagar e olhou para o enorme carpinteiro.
- Você sabe o meu nome? – perguntou o pequeno xulingo.
- É claro que sei. Fui eu que fiz você.
Eli se curvou, levantou Marcinelo e o colocou sentado no banco.
- Huummm! – disse pensativo o carpinteiro, olhando para todas aquelas bolinhas cinzentas. – Parece que você recebeu muitos adesivos ruins.
- Eu não queria que isso acontecesse, Eli, eu me esforcei para ganhar estrelas.
- Você não precisa se defender comigo, amiguinho. Eu não me importo com o que os outros xulingos pensam.
- Não?
- Não, e você também não precisa se importar. Quem são eles para dar estrelas ou bolinhas? São apenas xulingos como você. O que eles pensam, não importa, Marcinelo. A única coisa que importa é o que eu penso. E eu penso que você é muito especial.
Marcinelo deu uma risada.
- Eu, especial? Por que? Não sei correr. Não consigo pular. Minha tinta está descascando. Por que eu seria importante para você?
Eli olhou para Marcinelo, colocou suas mãos enormes naqueles pequenos ombros de madeira, e disse bem devagarinho:
- Porque você é meu. Por isso, você é importante para mim.
Nunca ninguém havia olhado assim para Marcinelo – Muito menos o seu Criador. Ele nem sabia o que dizer.
- Todo dia, tenho esperado a sua visita – explicou Eli. – Eu vim porque encontrei alguém que não tinha marcas. – Disse Marcinelo.
- Eu sei. Ela me falou sobre você.
- Por que os adesivos não colam nela?
O criador dos xulingos falou bem mansinho:
- Porque ela decidiu que o que eu penso é mais importante do que o que eles pensam. Os adesivos só colam se você deixar que colem.
- O quê?
- Os adesivos só colam se eles forem importantes para você. Quanto mais você confiar no meu amor, menos vai se importar com os adesivos dos xulingos.
- Acho que não estou entendendo.
Eli sorriu e disse:
- Você vai entender, mas levará tempo. Você tem muitos adesivos. Por enquanto, basta vir me visitar todo dia, e eu lhe direi como você é importante para mim.
- Eli ergueu Marcinelo do banco e o colocou no chão.
- Lembre-se – disse Eli quando o xulingo saía pela porta, - Você é especial porque eu o fiz. E eu não cometo erros.
Marcinelo nem parou, mas lá no fundo de seu coração pensou: acho que ele realmente se importa comigo.
E, quando ele pensou assim, uma bolinha cinzenta caiu ao chão.
FIM.