Aquele dia amanheceu incomum. Parecia o dia exato para pôr em prática o que durante noites e noites em sua cama ele ficava imaginando como fazer, como dizer sem causar dor. Mas ele já havia decidido.
Já não suportava mais o tédio dos dias, a mesmice daquela casa, a rotina... Embora amasse a seu Pai, sabia que havia criado asas e que já era hora de voar. Afinal de contas, já era um homem e nada tirava de sua mente que a vida era curta demais para ser vivida só ali. A independência despontava como uma necessidade e não mais só como um desejo.
O aconchego do lar, as regalias de um filho, as antigas canções, os momentos que passou ouvindo as histórias do pai com a cabeça recostada em seu ombro, já não soavam tão atraentes. O tempo tornou as situações comuns. Olhar pela janela, contemplar o horizonte sonhando com o que existia além se tornou um hábito. As palavras do Pai, ou mesmo conversar com Ele já era algo menos importante. E essas conversas, os carinhos, as brincadeiras, se tornavam cada vez mais difíceis de acontecer.
O que havia de tão especial na vida de seus amigos, por que eles pareciam tão livres, tão alegres? Ele precisava descobrir. Ele precisava se descobrir. Ele precisava crescer, prosperar, ser, construir, ele precisava viver por si mesmo, mas em si mesmo.
Foi um golpe muito forte no coração do Pai, por que Ele sabia que aquele não era o momento certo e nem a forma certa. Ele não queria dizer adeus. Mas embora sua dor fosse terrível, ele sabia que aquela era a escolha de seu filho. O pai lhe concedeu o que tanto seu coração queria.
Os dias que seguiram foram frios. O pai sabia que os caminhos do coração nem sempre levam aos destinos que sonhamos. O filho tinha certeza que seguir a voz do coração era o verdadeiro caminho.
No dia da saída, o filho olhou mais uma vez para cada detalhe de seu quarto, como quem se despede. Havia chegado o momento. Ele tomou nas mãos as suas coisas, e seguiu para a sala onde estava seu pai. Ele olhou para o pai e disse: Adeus. O pai lhe disse: Até logo. Ele seguiu rumo a nova vida que o esperava.
Para uma terra longínqua, a “terra dos sonhos”, uma terra de ninguém, sem nome, sem regras. O que poderia acontecer, o que o dinheiro não pode comprar, o que um prazer não pode aliviar? “Olhe para minha beleza, pague o que tiver e eu te faço esquecer de tudo que você deixou para trás, te ofereço meu amor sem as algemas de um compromisso!” “Aposte mais uma vez, você está vencendo, Amigo, você pode ter sempre mais” “Só mais uma dose, sei que você consegue! ” “A vida é uma festa, a noite é uma criança, você tem o mundo em suas mãos, você é o melhor!”. Ele viveu dissolutamente como um Pródigo.
E grande fome abateu-se sobre aquela terra. Quanto vale sua vida, quanto vale esse viver? Não há mais dinheiro. “Eu não o conheço, afaste-se de mim, volte quando tiver como pagar!”, “Guarde essa micharia para você, seu mendigo!” “Amigo? Eu nunca fui seu amigo, na verdade eu nunca o vi, afaste-se de mim”, “Ei, você está me devendo, sua vida está nas minhas mãos agora!” Para onde ir, não há como voltar atrás, semeei e vou colher?
“Vivendo por mim mesmo, pensando para mim mesmo
Castelos de areias, riqueza temporária
Paredes estão caindo, tempestades sobre mim estão me fechando
Lágrimas enchem meus olhos, aqui estou eu novamente”
Castelos de areias, riqueza temporária
Paredes estão caindo, tempestades sobre mim estão me fechando
Lágrimas enchem meus olhos, aqui estou eu novamente”
Na sarjeta, um olhar lhe alcançou, uma chance para sobreviver. Ele suplicou. Não tinha escolhas. Um estômago e um coração vazios. Um dos cidadãos daquela terra lhe ofereceu um trabalho. “Vá para os campos, apascentar meus porcos.” Onde estão seus sonhos agora? Onde estão seus amigos e as aventuras prometidas? Onde está seu dinheiro? Onde está seu coração? O tesouro certo no lugar errado, o coração obstinado no lugar onde queria estar, não imaginou onde poderia chegar. Quem o levou ao lugar mais sujo, onde você jamais imaginou estar? Você quis caminhar sozinho. Você chegou sozinho até este destino.
E desejava encher o seu estômago com as bolotas que os porcos comiam, e ninguém lhe dava nada. E sabia que mesmo que pudesse se fartar do maior manjar agora, nada lhe parecia preencher o coração. Até a lavagem lhe parecia deliciosa... Como pôde achar tedioso o seu próprio lar anteriormente? Ele não queria, mas era inevitável pensar no pai, em seus olhos de amor, nas dádivas que lhe dera, dádivas que iam além de riquezas materiais, elas ali não existiam. Até quando suportaria? E, tornando em si, disse: “Quantos jornaleiros de meu pai têm abundancia de pão, e eu aqui mereço de fome!”.
“Amaldiçoou esse sol da manhã
Me arrastou para mais um dia
De colher o que eu plantei
De viver com minha vergonha
Bem vindo ao meu mundo
E a vida que fiz
Onde um dia você é um príncipe
E no próximo você é um escravo”
Me arrastou para mais um dia
De colher o que eu plantei
De viver com minha vergonha
Bem vindo ao meu mundo
E a vida que fiz
Onde um dia você é um príncipe
E no próximo você é um escravo”
Difícil reconhecer um erro, mas difícil ainda voltar atrás. Até que ponto o orgulho suportaria, se é que ainda havia algo do que orgulhar-se. As lembranças vinham como em um filme, a memória de uma vida doce, o aconchego de um amor puro, incondicional. Incondicional, isso mesmo. Ele lembrou que o amor é eterno e incondicional. Ele reconheceu que era indigno desse amor, mas tentaria, se humilharia se preciso fosse. Ele estava disposto a reaver seu tesouro e fazer seu coração enganoso voltar ao lugar de onde jamais deveria ter saído.
Ele levantou–se da lama, caminhou sob o escárnio dos antigos amigos, sob a chuva e o sol, sob a humilhação de ter perdido a dignidade. Mas ele sabia, e no fundo sempre soube: “De que me valeria ganhar o mundo inteiro e perder minha vida?” Como ainda tinha vida, sabia que ainda tinha esperanças.
Ao adentrar os terrenos do pai, era como se o fôlego lhe voltasse aos pulmões. Nunca havia prestado atenção em como eram lindas aquelas flores, não havia nenhum tédio naquilo, tudo, apesar de antes parecer comum, agora era esplendido, maravilhoso. O que é preciso para valorizar as pequenas coisas?
As lágrimas lhe encheram os olhos, quando avistou sua casa. Era como se pudesse contemplar um manancial em meio ao deserto. Os trabalhadores pararam seu trabalho, atônitos. O tempo parou. Ele, cambaleando ainda, deu mais alguns passos, até que avistou seu Pai. O Pai permanecia, como quem espera, no mesmo lugar onde ele havia o deixado quando foi embora. Seu coração parecia explodir. Sem forças para caminhar, ele caiu de joelhos:
“Eu agüentei o quanto eu pude
Agora eu desisto e estendo minha mão
Papai, aqui estou eu novamente
Você me acolherá novamente esta noite
Eu fui e fiz o mundo meu amigo
E ele me deixou vazio
Eu arrastei de novo Seu nome para a lama.
Você que primeiramente me amou
Agora eu desisto e estendo minha mão
Papai, aqui estou eu novamente
Você me acolherá novamente esta noite
Eu fui e fiz o mundo meu amigo
E ele me deixou vazio
Eu arrastei de novo Seu nome para a lama.
Você que primeiramente me amou
Não sou merecedor de ser chamado de seu filho
Era para este ser meu fim
Mas, Papai, aqui estou eu novamente
Aqui estou eu novamente”
Era para este ser meu fim
Mas, Papai, aqui estou eu novamente
Aqui estou eu novamente”
E, levantando-se, foi para seu pai; ele queria ao menos, estar próximo do pai, ainda que como um servo. E, quando ainda estava longe, o seu pai o viu. E contradizendo todas as expectativas ruins que o filho tivera e sabia ser merecedor, o Pai se moveu de íntima compaixão e, correndo, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. E o filho lhe disse: “Pai, pequei contra o céu e perante ti, e já não sou digno de ser chamado teu filho.”
O pai lhe abraçou com a profundidade de um oceano, abraçou sua alma, e aquilo confirmava ao coração do filho que, embora não fosse merecedor, ainda tinha o amor de seu pai. Todos os caminhos o levaram até ali. Aquele momento estava guardado desde a eternidade, e o Pai sabia disso. Daquele dia em diante seu coração estava no lugar certo e seu tesouro achara o lugar adequado que tanto procurou, que tanto sonhou. Nenhuma aventura poderia lhe oferecer a eterna sensação de paz daquele instante. Ele partiu dizendo: Dê-me, e voltou dizendo: Trata-me.
O pai disse aos seus servos: “Trazei depressa a melhor roupa; e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão, e alparcas nos pés. O pai lhe devolveu sua honra e sua dignidade, lhe devolveu sua vida. “E trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos, e alegremo-nos; Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se”.
“Por que onde estiver seu tesouro, ali também estará seu coração” Mateus 6. 21
Texto extraído de Lucas 15. 11-24. Frases em itálico extraídas da canção Prodigal de Casting Crowns.
Marcinela e o Carpinteiro...






